O termo “sociedade de massa” foi criado no século XX para designar um tipo de sociedade onde se destacam as seguintes características:
• Produção em grande escala de bens e consumo;
• Forte expansão dos meios de comunicação de massa (televisão, rádio, internet etc);
• Consumismo desenfreado e artificialmente estimulado;
• Conformismo e apatia social gerado pela ação da publicidade que faz as pessoas se comportarem como meros consumidores e não como cidadãos dotados de senso crítico.

Essas são algumas das muitas características do tipo de sociedade em que fomos criados e estamos criando nossos filhos. Infelizmente a própria igreja tem sido influenciada por essa mentalidade, o que tem alterado consideravelmente a sua forma de ver o Reino de Deus e a sua práxis.

Dessa sociedade massificada, conformista, apática, consumista, superficial nos relacionamentos e desprovida de verdadeiras reflexões, emerge um outro tipo de igreja: a “igreja de massa”.

No lugar do “homem-massa”, conformado, sem autonomia, sem identidade própria (ou pelo menos sem consciência dela), objeto de manobra, alienado à realidade que o cerca, surge, se me permitem rotular, o “cristão-massa”. Esse, embora com um linguajar diferente e trejeitos próprios, não difere em nada do cidadão típico do século XX.

Toda a nossa máquina eclesiástica ainda está muito impregnada com as marcas do sistema romano de fazer igreja: massificação dos cultos, profissionalização e hierarquização dos ministérios, culto à personalidade, “pseudo-conversões”, ênfase maior em lugares e programas, uma conseqüente terceirização do sacerdócio universal e até mesmo a famigerada venda de indulgências travestida na promessa de “prosperidade” material. Uma verdadeira torre de Babel que precisa ser desmantelada.

Infelizmente esses aspectos lançam a igreja cada vez para mais longe das suas raízes, alterando drasticamente a sua natureza e missão.
Analisando a questão do ponto de vista da sociedade de massa, percebemos que o efeito de massa está ligado diretamente a determinados comportamentos como é o caso do recatado cidadão que, vestido com a camisa do seu time, no meio de dezenas de milhares de outros torcedores, de repente assume posturas totalmente estranhas das habituais nas arquibancadas de um estádio de futebol. Isso explicaria, até certo ponto, porque o comportamento de muitos “cristãos” quando estão no meio de uma multidão de outros “cristãos”, diferirem virtualmente daquelas atitudes que habitualmente praticam na intimidade do lar. De repente o marido estúpido, ou a esposa briguenta, ou o filho desafeiçoado tornam-se “cristãos-massa” diante da multidão embevecida por um ambiente sacralizado. Mas dentro de casa, a guerra continua companheiro!

Tal mentalidade tem trazido um terrível dualismo onde aquilo que se vive nos templos difere drasticamente daquilo que se vive nas casas. Isso porque em algum momento acabamos institucionalizando e transferindo a vida espiritual para os “lugares” religiosos, enquanto que na casa, o assunto é de ordem privada e, portanto, não é da conta de ninguém. Dessa forma, Deus e as coisas espirituais ficam confinados ao prédio que chamamos de templo e o trabalho, família, relacionamentos, dinheiro etc., são conduzidos do nosso próprio jeito.

Assim como o homem –massa, o “cristão-massa” torna-se um mero consumidor de um deus que tem a obrigação de abençoá-lo pela força de sua própria palavra. Ele é desprovido de identidade e atitudes próprias e fé pessoal. Não se preocupa com o mundo sem Deus e até se fecha nas suas programações de entretenimento gospel para não precisar perceber a realidade ao seu redor.

O impressionismo é algo que se destaca nesse tipo de sociedade e é muito usado pelos que dominam para conter e distrair as massas, tornando-as dóceis e fáceis de manipular. Hitler e sua corja usavam muito esses artifícios em suas portentosas campanhas para hiptonitazar a Nação, cometendo tantas atrocidades sem que houvesse qualquer tipo de questionamento ou reação. Esse tipo de estratégia fascista é muito usada hoje pela indústria cultural a fim de aquietar os ânimos do povo, saciando-o com futilidades e lançando-os para mais longe das verdadeiras mudanças.

Quando estamos no ambiente de uma igreja na casas, deparamo-nos com outro tipo de realidade:

  • Primeiro, ninguém é visto como mais um numa massa. É o Pedro, o André, a Marta que tem um mundo próprio,sonhos pessoais, dons e habilidades ímpares e, como um membro de um corpo, sua falta afetaria a ordem geral.
  • Segundo, o ambiente de simplicidade remete à simplicidade do próprio Cristo que viveu nesta terra como um de nós para aproximar-nos do Pai e simplificar o Reino de Deus, tão complicado pelos fariseus.
  • A atmosfera intimista de um pequeno grupo nos ajuda a aprofundar os nossos relacionamentos uns com os outros e com Deus, coisa que na sociedade de massa não é possível, pois esta é marcada pelas distâncias e pelas superficialidades relacionais.
  • Reflexão profunda e espaço para o diálogo e a ação. Aqui não somos meros reprodutores de superficiais “receitas de bolo” e “fórmulas infalíveis de sucesso”, somos levados a refletir na Palavra criando uma visão bíblica e coerente de mundo.
  • Na casa temos espaço para sermos nós mesmos, é o espaço para autenticidade. Não precisamos projetar a figura do “grande homem/ mulher de Deus”, invencível, intocável e infalível, mas pecadores igualmente desesperados e carentes da graça divina.
  • “Chamando terra!”. Isso mesmo, o ambiente de culto e relacionamentos num grupo menor ajuda os pregadores a não “viajarem” tanto nas suas pregações e na forma de abordar o povo porque os puxa para a realidade das pessoas. Além do que serve de um ótimo lembrete que todos somos gente feita de carne e osso, com limitações próprias.
  • O ambiente de uma igreja na casa é um desafio à verdadeira transformação porque se fizemos da nossa própria casa a igreja do Senhor, então não há espaço para máscaras. Por isso Paulo sugere que o que não podemos ser em casa, não podemos ser para a igreja de Deus (1Tm 3.5).
  • Uma igreja espalhada nas casas não pode ser controlada, perseguida ou engessada. O exemplo mais lindo que temos disso são as igrejas subterrâneas em países como a China. As taxas de crescimento excedem em muito aos da igreja do Ocidente onde a liberdade nos aprisiona! Há milhares de cristãos nesses lugares que morreram e morrerão sem nunca terem entrado uma única vez em um templo. Deixam de ser cristão por isso?

Enfim, são tantas as razões para mergulharmos nessa dinâmica de igreja que preciso colocar tudo isso em “doses homeopáticas” para não causar uma “overdose” em ninguém!

Sinceramente, hoje mexe mais comigo a visão de um grupo pequeno do que de uma multidão massificada. Joel Comiskey, importante estudioso da igreja em células, afirma que uma igreja em célula não precisa ser necessariamente grande para ser uma igreja em células. Isso foi um mito que nós mesmos criamos e que precisamos nos libertar dele.

Não estou advogando que nossas igrejas devem ser necessariamente pequenas. Deus espera que cresçamos muito e o próprio Jesus pregava às multidões, mas Ele nunca abriu mão do seu grupo pequeno de discípulos e foi ali que os homens mais transformadores da história surgiram. Aliás, foi nesse grupo pequeno que o nosso Senhor construiu o conceito de “a minha igreja”.

A desmassificação da igreja, portanto, é uma necessidade em nossos dias e que só é possível por meio da dinâmica da igreja nas casas. É um processo de desconstrução dos paradigmas enganosos que foram construídos em nossas mentes e que fizeram a igreja se tornar uma espécie de espetáculo para um mundo que não consegue nos levar a sério como povo de Deus.

Para finalizar, deixo a transcrição da música: “Obra Prima, Eu?”, de Wolô cantada por Silvestre Kuhlmann”:

Quando olhar para si mesmo
E não vir nada mais
Do que um pássaro a esmo;
Contra mil vendavais
Debatendo-se em penas;
Tanta pena de si,
Perguntando-se apenas:
– Por que foi que eu nasci?
Quando a própria certeza
Não passar de um talvez;
Cada enzima, cada osso,
Só um fosso
De porquês…
E a mais pura beleza
For igual aos balões;
Cada pelo, cada nervo
Um acervo
De ilusões;
Saiba, nem um cabelo
Cairá se não for
Sob o vivo desvelo
De um Deus Criador.
Seu mais lindo poema
Se reflete em você.
– Filho, venha, não tema;
Eu Sou o seu porquê.

Você é um manifesto
Da verdade vital.
Cada nervo, cada pelo
Um modelo
Original.

Você mesmo é um gesto
Desmassificador;
Cada osso, cada enzima
Obra-prima
Do Senhor.

Marcos Arrais

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