“Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31)

Quando imaginamos a glória de Deus, reportamo-nos a “quadros sacros” impressos em nossas mentes pela própria cultura judaico-cristã. Assim, quando pensamos em glorificar a Deus, assumimos aquela imagem celestial, longe, portanto, da realidade cotidiana que a maioria de nós vive. Isso acabou criando uma espécie de dualismo em que separamos coisas consideradas santas e coisas profanas. Tal mentalidade criou um comportamento polarizado em que deixamos Deus “de fora” de alguns negócios nossos, enquanto o incluímos em outros. No entanto, o versículo 31 de 1 Coríntios 10 nos ensina como podemos glorificar a Deus em todas as nossas atitudes.

Comer e beber são coisas que geralmente não consideramos “espirituais”. Em nosso dia-a-dia fazemos muitas coisas que normalmente não as consideramos sagradas por não fazerem parte daquele universo idealizado de culto que criamos em nosso imaginário religioso – “comer e beber” é uma delas. Isso explica, por exemplo, porque justificamos certas atitudes erradas tais como furar uma fila, exceder-nos na comida e na bebida, passar um sinal vermelho, agirmos de maneira gananciosa e injusta, tirar vantagem diante de uma situação e praticar atos no mínimo duvidosos. Isso ocorre porque acabamos excluindo o sagrado da esfera do cotidiano. Quando buscamos a glória de Deus, trazemos na consciência o dever de viver para honrá-lo.

Comer e beber são ações cotidianas. Qual o espaço de exercermos a nossa espiritualidade? Na cultura religiosa, o espaço do sagrado é aquilo que chamamos de templo, fora dali, parece que entramos numa zona onde tudo, ou pelo menos quase tudo é permitido. Quando observamos a vida de Jesus relatada no Evangelho, facilmente perceberemos que Ele viveu a sua espiritualidade em ambientes onde os religiosos da época normalmente evitavam: ruas, festas, praia, casas etc. Jesus mostrou que são nas ações corriqueiras que devemos atuar de tal forma que o Pai seja glorificado. Longe da figura de um monge construída pela igreja medieval, Jesus foi um homem que soube falar às pessoas de seu tempo e conviver com elas sem perder a sua essência. A partir da escolha dos seus próprios discípulos, notamos que ele trouxe para serem seus apóstolos homens simples, trabalhadores normais que pouco ou nada tinham a ver com os religiosos do seu tempo. Jesus tirou a espiritualidade de dentro do templo e a levou para as ruas, para as casas e para os locais de trabalho.

Comer e beber são necessidades básicas. Qualquer ser humano, por mais espiritual que seja, precisa comer e beber. A fome e a sede são sensações instintivas que provocam reações muitas vezes até anti-sociais, mas não se justifica, em nome da sobrevivência, manipularmos, agirmos de maneira incoerente, aproveitar-nos das pessoas ou trata-las de maneira injusta. Jesus disse que sendo fiéis nas pequenas coisas, é que seremos também nas maiores. Isso inclui a forma como lidamos com o dinheiro, a vida sexual, a profissão, o trato para com as pessoas e tudo o mais.

Paulo explica que o nosso compromisso vai além daquilo que é básico e cotidiano, por isso ele inclui tudo o mais na expressão “ou façam qualquer outra coisa”, indicando que não há uma única esfera das nossas vidas onde Deus não seja honrado. Assim, o que torna algo santificado não é o nome que damos ou a origem que tem, mas a atitude que temos em relação ao que fazemos, comemos ou bebemos (1 Timóteo 4.3-5). Quando resolvemos em nosso coração honrar a Deus naquilo que realizamos, então santificamos o que normalmente é considerado impuro (Atos 10:15). Não são as coisas que nos santificam, mas nós quem santificamos as coisas.

Marcos Arrais

CategoriaPastoral
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